Escritos de Ada

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Melhor assim

Minhas primeiras lembranças de uma Copa do Mundo datam de 1994. Em 90 eu ainda nem sabia torcer: Galvão Bueno gritava gol e eu tocava o sininho verde e amarelo. Quando a Argentina eliminou os canarinhos e eu, inocente, sacudi o brinquedo, vovô teve que avisar que o Brasil estava desclassificado. Evidentemente, não me abalei.

Quando a Copa de 1994 começou, eu já me interessava por algo além dos mascotes. Queria entender o que motivava a paixão dos meninos, os tremeliques do tio diante da televisão e as caretas das meninas quando diziam que não viam graça em onze homens correndo atrás de uma bola. Eu via vinte correndo e dois guardando as metas e pensava: “elas nem sabem do que estão falando!”.

Perturbei meu tio e meu avô até aprender o que era impedimento. Quis saber por que o goleiro se vestia de um jeito diferente dos companheiros, por que as chuteiras tinham travas, por que a bola tinha gomos. Passei a acompanhar o noticiário e mexer nas revistas Placar do meu tio. Diariamente, castigava minha bola de supermercado no quintal.  Alguém falou: “era pra ter nascido menino”. Bem, sorte minha ter nascido menina; do contrário, teria levado muitos encontrões dos moleques – uns parrudos, outros caneludos, todos maiores que eu.

Quando a Copa começou, parecia que eu era a única pessoa do mundo a preferir Bebeto a Romário. Aquele carinha com jeito de bom moço despertou uma simpatia que, até então, eu só sentira por uma figura que nunca vi atuar ao vivo. E não foi obra do meu tio rubronegro. Suas revistas, as camisas e o escudo na cabeceira da cama tiveram sua importância. Mas foi vovó quem me fez gostar de Zico. Se via uma falta mais dura nas raras partidas que assistia, a doce senhora se revoltava. Quando puxavam uma camisa, lá vinha a história: “lembrei do pobre do Zico... Puxaram tanto a camisa do rapaz numa Copa que rasgaram! Rasgaram a camisa de Zico!”. Horrorizada, eu imaginava um brutamontes estilo G.I.Joe destruindo o uniforme do galinho. Tomada de dó, pesquisei sobre o “pobre do Zico” e logo quis uma rubronegra número 10 para mim.

 
Anos depois, vesti o que eu já chamava de manto sagrado num campeonato interclasses de futsal. Caberiam três de mim na camisa emprestada. Eu jogava de brincadeira, nas aulas de Educação Física do ginásio. Até dava umas arrancadas, mas vivia mandando a bola na rede de proteção da quadra. As colegas gostavam de mim e deve ter sido por isso que entrei no time. Mas, no pouco tempo em que fiquei em quadra, fui incapaz de dominar a bola: chutei feito louca e voltei ao banco para não sair mais de lá. Devolvi a camisa, deixei a bola em paz e me conformei com a condição de torcedora. Melhor assim: há muitos pernas-de-pau no mundo. Já um toque feminino nas rodas de discussão sobre futebol não faz mal a ninguém.


Publicado no Novo Jornal, edição do dia 25 de junho de 2010.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

O cego e o violão

O som da bengala batendo de leve no portão de ferro era o primeiro anúncio da chegada de João Cego. Depois, a voz grave: “dona Vanda?” E vovó pedia a ele que esperasse, enquanto largava o pano de prato, a vassoura ou a Bíblia para ouvir as canções de João.

Eu sentia um pouco de medo de João Cego. Era um homem alto, magro, queimado do sol, cabelo liso e meio oleoso caindo desarrumado sobre a testa. Andava curvado, tateando o chão com uma bengala, e carregava nas costas uma sacola e um violão. Uma mancha azulada não deixava ver a cor dos seus olhos. Eu me perguntava como um homem que parecia ter nuvens nos olhos conseguia superar os batentes das calçadas íngremes e atravessar a rua sem ser atropelado.

Depois fiquei imaginando se João Cego poderia ser um impostor. Afinal, como ele conseguia reconhecer as casas? Quando eu insistia nessas questões, vovó, do alto de sua fé, respondia que Deus tinha dado um dom a João. E fui me dando conta de que há coisas que não se explicam. Coisas como um cego que toca violão.    

O fato é que, de todos os personagens pitorescos da minha infância em Areia Branca, João Cego é o único que posso visualizar nitidamente. Mal recordo as feições da mulher que punha vasilhas de leite na rua para alimentar os gatos; o homem do cavaco chinês, que tocava triângulo para anunciar sua passagem; o rapaz que gritava “picolééé” e a gente ouvia três ruas adiante. Mas a figura de João Cego, talvez por sua atipicidade, ficou gravada na minha memória.  

Não, João Cego não era um grande instrumentista, tampouco um cantor refinado. Enquanto eu o observava discretamente por trás das persianas da porta da sala, notava sua maneira desajeitada de empunhar o violão. Nunca o vi fazendo um grande solo. Também não recordo as letras das canções. Lembro que João Cego cantava alto e grosso, num tom lamurioso que me faz imaginar que, talvez, suas músicas versassem sobre saudade, tristeza, corações partidos. Ou sobre a crueza das longas caminhadas sob o sol, os pés rachados e mal acomodados em um par de chinelos velhos. Algo que, fosse a estranheza ou, quem sabe, a sinceridade, me impressionava de alguma maneira.

Não sei o que foi feito de João Cego. Não lembro de tê-lo visto nas minhas últimas e curtíssimas temporadas de férias. Terá encontrado um lugar para descansar? Terá sucumbido ao cansaço de cantar e tocar de porta em porta por uns trocados? Não sei. Como também não imagino o que me fez lembrar João Cego e o seu violão. Quem sabe, algum rastro da infância e das coisas que só um coração de criança consegue sentir.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

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O clamor cor de prata
dos peixes
nas redes

homens
feitos de areia
maresia 
e sal.

domingo, 26 de setembro de 2010

Nas entrelinhas

A lírica moderna é desafiadora. Como ficar tranqüilo diante dos despropósitos de textos que não revelam a chave da compreensão?

Acontece que a poesia não precisa ser compreendida. Ela deve, sim, provocar os sentidos, embora essa provocação desafie o bom senso. Mas, quem disse que a poesia necessita de bom senso? Seja através de sintaxes tortas ou de desbundes gramaticais, a produção moderna tem o mérito de buscar o deboche, o inusitado, o mal comportado que provoca reações bem dessemelhantes daquelas experimentadas pelos leitores das obras Românticas.  

Na visão moderna, para produzir arte, é necessário pesquisar e estudar, porque obra alguma é fruto total do acaso. A escrita é um ofício que exige maestria técnica. As palavras são lapidadas de maneira a representar o que se quer dizer. Essa exatidão, buscada desde a época dos sofistas – quando Protágoras a defendia sob o nome de orthoépia – é a habilidade de “recriar o mundo”, o que não implica, necessariamente, em se adequar à realidade para tornar a leitura fácil. Palavras claras não implicam em clareza de sentido. Tomem-se como exemplo os versos de Ana Cristina César:
“Precisaria trabalhar – afundar – / – como você – saudades loucas / – nesta arte – ininterrupta – / de pintar – / A poesia não – telegráfica – ocasional – / me deixa sola – solta – / à mercê do impossível – / – do real”

O poema “Vacilo da Vocação” é uma prova de que técnica e a concisão caminham juntas. As palavras, isoladas ou agrupadas em períodos muito pequenos, são separadas por travessões que indicam os recortes no pensamento do eu fragmentado. Esses retalhos constroem o sentido do poema, ao mesmo tempo conciso, fragmentado e completo. As palavras parecem metodicamente pensadas e montadas. Há uma brevidade não relacionada unicamente ao tamanho do poema, mas também à capacidade de reunir o máximo de sentidos sem palavreados desnecessários.

A presença dessas características tão ligadas à técnica em “Vacilo da Vocação” não significa desprezo à inspiração. O eu lírico que se esforça “nesta arte – ininterrupta – de pintar” é o mesmo que fica “à mercê do impossível – do real”. Ele trabalha para compor o poema, mas, sendo um artista, é sensível à idéia inesperada. Ele não se fecha ao “impossível” e ao “real” como fornecedores de material para versos. Afinal, essa não é a inspiração dos românticos, e sim a que vem do real, pois a poesia não é onírica, distante: ela está no mundo, ao nosso alcance.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Onde mora o encantamento

Os escritores modernistas inauguraram uma era de liberdade ao abolirem certas obrigações parnasianas. Imposições como catar rimas preciosas e organizar minuciosamente as sílabas de cada verso criaram muitos poemas tecnicamente perfeitos, mas vazios.

Por outro lado, há quem abuse da liberdade, escreva qualquer coisa de qualquer jeito e diga que é poeta. O fato é que, embora não precise de um molde, a poesia tem parâmetros de qualidade. Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e outros foram brilhantes com seus versos livres. Eles cumpriram o que T.S. Eliot dizia ser a tarefa do poeta: preservar a língua e aperfeiçoá-la, ao utilizá-la para exprimir os próprios sentimentos e os das outras pessoas, de tal forma que os leitores, conscientes do que sentem, aprendem algo sobre si.

Creio que seja esta a principal característica da boa poesia. Venha em forma de soneto ou como uma união de versos sem rima e sem métrica, o poema deve fascinar o leitor. Os primeiros poetas modernos conseguiam este efeito através das dissonâncias. No livro Estrutura da lírica moderna, Hugo Friedrich aponta a “tensão dissonante” como característica essencial das artes modernas. A dissonância é explicada por Friedrich como um misto de fascinação e incompreensibilidade, resultado da obscuridade dos textos. Conclui-se, daí, que os poetas modernos não pretendiam ser claros ou mostrar a realidade de maneira objetiva, mas chegar ao âmago do leitor. O francês Charles Baudelaire já dizia que “existe certa glória em não ser compreendido”. Deixemos, portanto, a comunicação clara e objetiva aos textos jornalísticos – embora nem todos o façam.

Não parece fácil, e não é. Nem todos estão dispostos a acostumar os olhos à novidade da poesia. Talvez seja este um dos maiores dilemas enfrentados pelos poetas, desde o desabrochar da lírica moderna. Não é difícil encontrar um escritor que já tenha ouvido algo como: “você é obscuro, parece escrever só para você”. O fato é que um meio de criação poderoso como a poesia não precisa ser utilizado para transcrever a realidade. Um poema pode ser uma porta para outro mundo, no qual as sensações dão o tom das experiências e revelam o que não surge à primeira vista. Nesse sentido, a poesia é revelação não do que vemos todos os dias, mas do que se esconde por trás de nossa consciência. Para tanto, é necessário entregar-se ao que o escritor mexicano Octavio Paz chamou de “trato desnudo do poema”: o leitor percebe que o fascínio não está em fatores externos, e sim na própria poesia, no encantamento produzido por cada imagem ou som evocado pelas palavras. Somente assim, a experiência poética se concretiza.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sinatra sem voz

Todo jornalista, com ou sem formação acadêmica, já mexeu com o tal lead. Essa palavra inglesa define o primeiro parágrafo da reportagem, que, reza a cartilha, deve responder as perguntas: O quê? Onde? Quando? Por quê? Como?

Um adepto fervoroso do lead dificilmente iniciaria um texto com: “Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava em um canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele”. Pois é assim que começa um dos perfis mais aclamados da história do jornalismo.

“Frank Sinatra está resfriado” foi publicado pelo americano Gay Talese em 1965, na revista Esquire, e incorporado mais tarde ao livro Fame and obscurity. Sua mais recente versão no Brasil foi publicada em 2004, com o título Fama e anonimato, pela Companhia das Letras.

Talese foi repórter diário do The New York Times nos anos 1950. Pediu demissão em 1965: queria mais tempo para apurar suas matérias. Passou a trabalhar em revistas e em seus próprios livros. Tornou-se um dos pais do new journalism, modalidade que funde elementos do jornalismo com outros tipicamente fictícios, como a descrição detalhada das cenas e o ponto de vista do personagem.

Essas características estão no perfil de Sinatra, fruto de cinco semanas de observação e nenhuma entrevista com o próprio. O cantor recusou-se a falar com Talese, que decidiu seguir seu perfilado em Los Angeles e conversar com quem estava à sua volta. O resultado são mais de cinquenta páginas magistrais.
 
Hoje, aos 77 anos, Talese detém um amplo legado, difícil de resumir em poucas linhas. Uma de suas lições é que não se deve ser escravo do lead, sob pena de emburrecer à força da facilidade demasiada. Outra é que é possível escrever um perfil sem entrevistar o perfilado, desde que haja uma acurada observação. Não poder perseguir um assunto durante semanas não é empecilho para deixar de cercar bem os fatos. Pena que a corrida cada vez maior pelo “furo” resulte em textos rasteiros e em jornalistas reféns da internet e de comunicados oficiais.

Talvez, o maior ensinamento seja o de que precisamos colocar gente nos jornais. O jornalismo de Talese tinha uma cara muito humana, fosse empoada como a das celebridades ou suada como a dos trabalhadores braçais. Para isso, é necessário ir às ruas, falar com as pessoas, cercar-se delas. Isso exercita o instinto. E jornalista sem instinto, como diria Talese, é “Picasso sem tinta. Ferrari sem combustível – só que pior”. É como Sinatra sem voz.