Escritos de Ada

sábado, 22 de março de 2014

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O cego e o violão***

O som da bengala batendo de leve no portão de ferro era o primeiro anúncio da chegada de João Cego. Depois, a voz grave: “dona Vanda?” E vovó pedia a ele que esperasse, enquanto largava o pano de prato, a vassoura ou a Bíblia para ouvir as canções de João.

Eu sentia um pouco de medo de João Cego. Era um homem alto, magro, queimado do sol, cabelo liso e meio oleoso caindo desarrumado sobre a testa. Andava curvado, tateando o chão com uma bengala, e carregava nas costas uma sacola e um violão. Uma mancha azulada não deixava ver a cor dos seus olhos. Eu me perguntava como um homem que parecia ter nuvens nos olhos conseguia superar os batentes das calçadas íngremes e atravessar a rua sem ser atropelado.

Depois fiquei imaginando se João Cego poderia ser um impostor. Afinal, como ele conseguia reconhecer as casas? Quando eu insistia nessas questões, vovó, do alto de sua fé, respondia que Deus tinha dado um dom a João. E fui me dando conta de que há coisas que não se explicam. Coisas como um cego que toca violão.    

O fato é que, de todos os personagens pitorescos da minha infância em Areia Branca, João Cego é o único que posso visualizar nitidamente. Mal recordo as feições da mulher que punha vasilhas de leite na rua para alimentar os gatos; o homem do cavaco chinês, que tocava triângulo para anunciar sua passagem; o rapaz que gritava “picolééé” e a gente ouvia três ruas adiante. Mas a figura de João Cego, talvez por sua atipicidade, ficou gravada na minha memória.  

Não, João Cego não era um grande instrumentista, tampouco um cantor refinado. Enquanto eu o observava discretamente por trás das persianas da porta da sala, notava sua maneira desajeitada de empunhar o violão. Nunca o vi fazendo um grande solo. Também não recordo as letras das canções. Lembro que João Cego cantava alto e grosso, num tom lamurioso que me faz imaginar que, talvez, suas músicas versassem sobre saudade, tristeza, corações partidos. Ou sobre a crueza das longas caminhadas sob o sol, os pés rachados e mal acomodados em um par de chinelos velhos. Algo que, fosse a estranheza ou, quem sabe, a sinceridade, me impressionava de alguma maneira.

Não sei o que foi feito de João Cego. Não lembro de tê-lo visto nas minhas últimas e curtíssimas temporadas de férias. Terá encontrado um lugar para descansar? Terá sucumbido ao cansaço de cantar e tocar de porta em porta por uns trocados? Não sei. Como também não imagino o que me fez lembrar João Cego e o seu violão. Quem sabe, algum rastro da infância e das coisas que só um coração de criança consegue sentir.


***Sim, estou reinaugurando o cantinho com um texto antigo. Perdoem-me, mas não pude segurar a vontade de tirar a poeira daqui, e postar algo antigo foi a única maneira de fazer isso neste momento. Em breve, textos novos. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

Borges

“Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões de sua visão; o telefone, de sua voz. Em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.” (Jorge Luis Borges)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Texto velho sobre o novo, porque o novo vem de novo (sempre)

Publiquei o texto a seguir no Novo Jornal, em novembro de 2009, período em que eu tentava lidar com minhas borboletas no estômago - elas sempre vêm quando me meto a andar em terrenos desconhecidos. Depois, a crônica veio parar aqui no blog em março do ano passado, outra época de incertezas - umas se dissipando, outra se avizinhando, batendo feio no meu estômago, no meu sono, no meu equilíbrio.
Agora, novamente. Um novo que vem se desenrolando desde semestre passado, um novo-novo se aproximando e um novo que nem começou ainda, mas já me traz as borboletas de novo. E, mais uma vez, esse texto me vem diante dos olhos. Não, eu não o procurava. Estava só vagando a esmo no meu próprio blog, sem saber o que fazer com a falta de palavras, a falta de sono, a falta de paciência, a falta de certezas... E meu próprio texto me parece providencial, agora. Ei-lo.


“Não há um porquê”, responde Phillipe Petit, estrela de O Equilibrista(direção de James Marsh e Oscar 2009 de melhor documentário), quando alguém pergunta o que o leva a atravessar grandes distâncias sobre uma corda bamba. 

O francês Phillipe Petit ganhava a vida nas ruas, fazendo truques de ilusionismo e de equilibrismo. Ficou famoso em 1971, quando, aos 22 anos de idade, caminhou sobre um cabo esticado entre as duas torres da catedral de Notre Dame, em Paris. Três anos depois, no dia 7 de agosto, burlou a segurança do extinto World Trade Center, em Nova York, para atravessar oito vezes seguidas o espaço entre as torres gêmeas. A performance durou quase uma hora e foi assistida por cerca de cem mil pessoas. O artista foi preso após o ato ilegal, e condenado a uma pena simbólica: fazer um espetáculo infantil, gratuito, em um jardim.

Andar sobre o vão entre as inacabadas torres gêmeas exigiu planejamento, treino do corpo e da mente e equilíbrio entre ambos. Depois, deslizar sobre o cabo. E mais. Phillipe fez graça para o público, sentou sobre a corda, pulou, conversou com as aves. Phillipe era um bamba da corda. Mas ainda um mortal – maluco – sobre um cabo de aço a mais de 400 metros de altura, sem segurança ou rede de proteção. A velha arte do equilibrismo, num trajeto nunca antes percorrido.

Repiso o clichê de propósito. Por quê? Não existe um porquê. Existe vontade.

Mas andar em novas trilhas exige, além da vontade, conhecer o terreno – ou a corda – onde se pisa. Planejar, calcular e seguir. Equilibristas experientes não temem o avanço em meio à lâmina do vento. Dão um passo para trás, oscilam para os lados, mas jamais param no meio da corda. O medo de cair impede o progresso.

No entanto, há que se ter cautela; correr expõe ao risco de tropeçar nos próprios pés, e o público sob a corda pode não amortecer a queda. Sempre há quem se divirta nessas ocasiões. Por isso, é importante manter o foco: levantar a cabeça e olhar para a frente evita a vertigem.

Mas os outros são os outros. Eles apenas podem assistir ao êxito ou à derrocada alheia. Arriscar-se na corda bamba é, primordialmente, desafiar-se, colocar-se à prova. E, mais do que arriscar, descobrir o ponto em que a força motriz transforma-se não em explosão desastrosa, mas na leveza de um Phillipe Petit, caminhando suspenso sobre o vão entre duas torres, cheio de uma vontade que só os malucos, em sua peculiar lucidez, possuem.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Travada

Achei que estivesse travada só para escrever poemas.
Hoje eu não consegui escrever uma linha da minha dissertação.
Falta uma semana para o final do prazo.
Deus me ajude.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Poema do livro "Águas"

Lembra
daquele caderno de capa azul
margens abarrotadas de versos?

Vou dobrá-lo em um barquinho
e navegá-lo
em alto mar

o vento no leme.