Escritos de Ada

sábado, 18 de abril de 2020

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O que se sente (ou um escrito resgatado de 3 anos atrás)


Sinto muito
eu digo
e você me diz que estou escolhendo o caminho mais confortável
o clichê que dizemos quando nada sentimos

você me diz que estou sendo fria

na verdade
quando digo que sinto muito
é porque sinto por nós dois
por nosso passado
e pelo futuro que não vai chegar

é por nunca ter sentido tanto.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O princípio

                                                                                                   Para F.


No princípio não houve o verbo.

Houve tons de vermelho
houve álcool
houve a sensação de nada ao nosso redor apesar de todas aquelas pessoas
e houve depois uma mulher dizendo
que o amor é muito bonito mas não podíamos ficar sozinhos ali.

Do vermelho se fez o azul:
era a primeira madrugada
minha planície se tornou também sua
e as paredes do quarto azulavam
e escondiam tudo que não se pode dizer nem fazer às claras
enquanto o mundo
– apenas o mundo –
dormia.

A primeira manhã trouxe o sol mas ele parecia estar pela metade
e quanto anoiteceu não houve lua
você disse que havia luz
e até mesmo um brilho no mar
mas juro que eu vi a sombra escondendo inclusive
aquele fenômeno de nome engraçado
(luciferase)

Então já havia o verbo
mas a noite perdurou de modo que
por alguns dias não houve azul nem vermelho
ainda não havia lua
e a metade do sol tinha ido embora

então o verbo nos levou ao sétimo dia
e buscamos mais cores
e buscamos mais álcool
e havia tanta gente que em um momento já não havia ninguém
e tornamos ao princípio:

azul, vermelho, sons, luzes
tudo que havia se fundiu
e afugentou a sombra

e sol e lua se moveram tranquilos sobre a planície
e a luciferase continuou a brilhar
sobre a face das águas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A grandeza dos trastes


                                                     (Publicado originalmente no Novo Jornal, em janeiro de 2010)

           Carlos Drummond de Andrade disse, certa vez, que o maior poeta brasileiro era Manoel de Barros. O próprio, mais tarde, discordou do mineiro de Itabira e falou que o melhor era João Cabral de Melo Neto, seu contemporâneo da Geração de 45. O fato é que há quem torça o nariz para o poeta matogrossense, dada sua preferência por trastes e restos. “Sou mais a palavra ao ponto de entulho”, confessou em um de seus poemas.
Além disso, Manoel ainda é visto, folcloricamente, como o poeta pantaneiro. É verdade que seu universo não é urbano. Predominam, em sua poesia, o mato embrenhado, os rios, as plantas e os animais silvestres. No entanto, a presença do Pantanal é só um dos detalhes na produção do escritor nascido no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 1916. Seu trunfo é ser um artífice do verbo em sua origem espúria, como revelam os versos: “Nenhuma voz adquire pureza se não comer na espurcícia. Quem come, pois, do podre, se alimpa. Isso diz o Livro.”
A poesia de Barros é a de quem está descobrindo o mundo à maneira ingênua de  uma criança ou de um louco. “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina. / No osso da fala dos loucos tem lírios.”, escreve. Manoel assemelha-se a um menino que, tão logo é solto em meio a escombros, retira deles brinquedos e exibe-os com a bonita ingenuidade de quem enxerga utilidade em algo aparentemente imprestável.
Dessa poesia infante surgem imagens da essência de coisas comezinhas e mesmo abstratas. O poeta “fotografa” o silêncio, o “azul-perdão no olho do cego”, o “perfume de jasmim no beiral de um sobrado”, e personagens como o bêbado que caminha solitário em uma rua silenciosa, o monge “descabelado” por uma palavra renascida da ruína, os artistas que vagam pelo mundo criando obras a partir de restos e pregando a inutilidade das coisas. São esses os “sujeitos distraídos” de que fala o poeta mexicano Octavio Paz: criaturas deslocadas do centro da cena social, ligadas à poesia porque dão sentido a ela ao buscar o que poucos enxergam.
É nessa maneira peculiar de fazer – e revelar – poesia que, acredito, está o maior mérito de Manoel de Barros, mestre em transformar o pequeno em magnânimo.  São escritores como ele que mostram como, em se tratando de poesia, a inutilidade pode ser uma virtude.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Catedral

Ali
onde eu já quis dobrar os joelhos
onde eu imaginei haverem anjos
e - sacrilégio - desejei
brincar no telhado
ao lado dos querubins mais atirados

Hoje
apenas pedras, estátuas, tapetes
e gente
tanta gente
cantando tão alto para ninguém

Ali
absolutamente nada
o nada
e seu peso retumbante
a me esmagar.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O mar da minha infância

(Texto originalmente publicado no Novo Jornal, edição de 19/02/10)


Moro a duas ladeiras do mar. Dois anos atrás, podia vê-lo do terraço de casa. Hoje, enxergo apenas uma nesga de oceano entre os dois espigões construídos a poucas ruas da beira-mar.
Embora próxima ao mar, não costumo visitá-lo. Talvez seja nostalgia mal resolvida. Quando penso em mar, me vêm à mente as pocinhas de Morro Pintado; as águas calmas de Upanema, onde minha mãe me banhou aos seis meses de idade; as ondas da Baixa Grande em dias de maré baixa, porque, quando a praia enchia, eu me machucava nas pedras sob a água.
Os domingos de praia em Areia Branca, município oestano a 330 km de Natal, estão entre as lembranças quase táteis da minha infância. A areia molhada e compacta, os castelos feios que eu mesma desmanchava, as conchas que – vovô ensinou – carregavam o som das ondas. E histórias de quando eu ainda não podia ser deixada a sós com o mar.
Minha avó materna conta que, quando eu tinha dois ou três anos de idade, caí na sala de casa. Vovó me pegou no colo imediatamente e, depois disso, parei de andar. Começou a peregrinação nos consultórios médicos. Os exames – durante os quais eu esperneei, chorei e gritei de pura manha (dizem) – não atestaram problema algum. Mas eu chorava e permanecia sentada quando me punham no chão.
Então, um médico perguntou se havia alguma atividade da qual eu gostasse muito. Surgiu a ideia de me levar à praia na companhia de uma vistosa bola colorida. Não deu outra: tão logo vi a esfera tricolor rolando na areia, esqueci a apreensão que me mantinha confinada nos braços de vovó ou nos das tias. Ainda tenho a foto quadrada e pequena, tirada com a Kodak da prima: em primeiro plano, uma garotinha pequena, cabeçuda e de pernas tortas correndo atrás de uma bola enorme. Ao fundo, céu e mar se confundindo.
Durante anos, corri naquelas praias, engilhei a pele das mãos e dos pés de tanto banho de mar, cansei de tentar desembaraçar o cabelo imenso, cheio de sal, areia e nós. Hoje, há dez anos na capital, sinto-me agoniada com a profusão de guarda-sóis, barraquinhas, cadeiras e carrinhos de lanches, o fedor dos esgotos vencendo o cheiro da maresia, a água de qualidade duvidosa. Então, lembro-me do do mar da minha infância, tranquilo e imponente, sua espuma bordando a areia limpa, sem espigões, sem ambulantes, sem línguas negras. Só eu, o oceano e meus castelos de areia e de sonhos.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Peixes vivos


Minha arquitetura é líquida.

É de sensibilidades descompassadas:
suor e lágrimas
enguias nas mãos de uma criança.

Às vezes consigo governá-las
e transmutá-las em tinta
ora azul ora lilás
vertida em verbo

Outras vezes
elas se transformam em peixes
bichos mais vivos do que eu

eles turvam a água
quebram o aquário
e dele se derramam minhas sensibilidades
– aquelas descompassadas
enguias nas mãos de crianças –

sem tinta ou aquário
ou fundação qualquer

sobra

apenas aquela matéria incolor
fundação principal
da minha arquitetura.

terça-feira, 10 de julho de 2018

O engano de Adélia

A vida do poeta, Adélia
há de ser mais triste do que alegre

alegria
até faz uns floreios
uma rima aqui, outra ali

mas alegria
não dá poesia.