Escritos de Ada

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Antes do verbo e da carne

Existe ainda um mistério
que talvez nunca se revele:
o exato momento em que amei você.

Mas acho que foi antes mesmo de sentir suas costas
e de tocar seus cabelos.

Antes 
do olhar fortuito sob o céu da Ribeira
ou mesmo das notas que rompiam a fumaça naquele palco
em um longínquo dezembro.

Acho que amei você antes
que o mesmo pássaro cantasse às nossas janelas
e a mesma flor tocasse nossos ombros.

Eu já o amava 
desde o vislumbre anterior  ao verbo  e à carne diante de mim:
o vislumbre de um homem diante do qual eu ficasse 
verdadeiramente nua.

Amei esse homem antes de vê-lo em você
mas não tanto
quanto na noite de minha nudez
quando mistério nenhum foi maior
do que o derramamento da alma
enfim revelada
enfim amada.

De tão menor 
cabe o mistério naquele pássaro
naquela flor
nas notas através da fumaça.

Nenhuma palavra o desvela.

Apenas sabemos que
antes do verbo e da carne
ou mesmo antes de nós
era.




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

"Gauche"

Meu primeiro livro chama-se "Menina gauche". É um livro de poemas. Na orelha dele, escrevi um pequeno texto remetendo ao "Poema de Sete Faces", de Drummond, aquele do "Vai, Carlos, ser 'gauche' na vida". "Gauche" é uma palavra francesa que significa "esquerdo", "estranho", "esquisito".

"Esquisita". Esse é um dos adjetivos que mais escutei quando era criança. Penso que tal recorrência não seja fruto do nada, do acaso, de mera vontade de ver até que ponto ia minha paciência diante da tiração de onda. Tinha de haver algum motivação.

Pois bem, foi motivada por isso que escolhi o título "Menina gauche" para meu primeiro livro. De certa forma, eu estava assumindo uma condição que não poderia ser fruto de brincadeira, mas que parecia se tratar de uma constatação diante de certas coisas que eu fazia. Eu era a menina que aprendeu a ler sozinha bem cedo, que falava como adulta, que levava toda brincadeira a sério, que chorava quando faziam piadas comigo, que não precisava estudar para nada que envolvesse leitura e escrita e que, em algum momento, percebeu que isso não era de todo bom. Se o fato de ser "muito inteligente" fez um professor me desafiar, diante de toda a turma, a tirar nota dez numa chamada oral - escrotamente elaborada a partir de 3487374 estatísticas num quadro de fim de página que criatura nenhuma pensaria em memorizar - e rir enquanto falava que me derrubaria do cavalo, não podia ser bom ser como eu era. Ser "superdotada", falar como uma "professorinha", viver num mundo à parte, rejeitar convites para socializar com amiguinhas na praia alegando cansaço, chorar por tudo, rir ou não me comover com a notícia da morte de alguém parecia ser ruim. Eu precisava me adequar. E tome calçar luvas de boxe para lutar contra mim e contra tudo no mundo que me fazia sentir inadequada, mimetizar relações sociais, treinar coisas que deveriam ser naturais até elas se transformarem em padrões.

Ocorre que isso cansa. Vigiar-se e se apertar em caixinhas estreitas gera dor e exaustão, ao ponto do surto. E eu me sentia assim, exausta, querendo saber se eu tinha ansiedade ou depressão ou síndrome do pânico ou algo parecido quando, algumas semanas atrás, o psicólogo abriu o jogo e disse que tenho Síndrome de Asperger (ou seja, estou na ponta mais branda do espectro do autismo), após mais de dois anos de terapia, aos 33 anos de idade. Dois anos podem parecer muito tempo, mas, na verdade, foram o necessário para que eu soubesse lidar com o diagnóstico.

Eu, como criatura que precisa de "todos os pingos no is" e que, nas palavras da minha avó materna, sou "cheia das nove horas", muito dependente de tudo muito bem categorizado e explicado, fiquei aliviada por poder colocar sob um só rótulo boa parte do que me faz ser quem eu sou. Eu preciso me certificar das coisas e entendê-las e fico aliviada quanto consigo colocá-las em caixas, logo eu, que passei boa parte da minha vida tentando fugir de vários contêineres nos quais tentavam me acomodar enquanto eu tinha a nítida sensação de que eu não cabia neles.

Agora eu entendo por que é difícil olhar pessoas nos olhos enquanto falo, por que me sinto mal quando me tocam sem permissão, por que preciso achar espacinhos nas multidões para ficar bem em meio a elas, por que certos barulhos são como punhais nos meus ouvidos, por que prefiro me comunicar a distância e por escrito, por que lido mal com instruções orais, por que meus interesses e algumas habilidades são tão específicos e chegam ao ponto da fixação.

Eu não vou viver em função de ter a Síndrome de Asperger, mas pretendo, sim, focar em ser mais compreensiva comigo, ser mais cuidadosa, desenvolver mais estratégias que não me machuquem. Quero também que os neurotípicos entendam que há pessoas como eu, que precisam de um pouco mais de paciência e cuidado e menos de ouvir coisas como "ah, mas todo mundo é assim, todo mundo tem manias em algum grau, tudo mundo tem tique, tudo mundo isso e aquilo" etc... Vejam, eu não sou todo mundo. Eu, assim como qualquer pessoa que esteja dentro do espectro do autismo, sofro - sim, o verbo é esse mesmo, "sofrer" - com coisas que parecem triviais.

Por exemplo, eu não me irrito, simplesmente, com barulho. A coisa é muito pior. Eu tenho taquicardia quando a vizinha de cima anda de salto alto, eu pulo para cima da cama quando uma moto de 28372873287 cilindradas passa arrancando o asfalto da rua, eu já briguei com meus alunos porque achava que eles estavam conversando quando, na verdade, o barulho estava todo do lado de fora.
Então, por favor, você que me lê, saiba que o discurso do "somos todos iguais" não pode ser aplicado de modo leviano. Há uma diversidade de comportamentos e de conjuntos de características de modo que podemos dizer que sim, somos sete bilhões de diferentes. Defendamos equidade nas mais diversas relações e níveis, não uma suposta uniformidade que é excludente, que faz alguém no espectro do autismo - que é um continuum imenso, passando por muitos tons de cinza desde a Síndrome de Asperger até o autismo dito clássico - ouvir coisas como "ah, não, você tá aí falando que se incomoda com barulho, mas quem gosta de barulho? Ninguém."

O que estou querendo dizer é: abram seus olhos e seus ouvidos, escutem mais, observem mais, julguem menos, informem-se. Eu estou procurando me informar sobre minha condição e me observando melhor, procurando padrões que me auxiliem no entendimento de quem eu sou e na construção de estratégias para viver melhor. Relativizar minhas características de "aspie" - por mais que a intenção seja boa -, ao contrário de me ajudar, me silencia e me frustra. Isso inclui não me comparar com outras pessoas que também estão no espectro do autismo. Trata-se, como já ressaltei, de um espectro muito amplo, de modo que é difícil pensar em um "aspie" com o mesmo conjunto de características de outro. Há aqueles não suportam toque algum, nem do pai ou da mãe, por mais gentis e amorosos que estes sejam. Já eu consigo permitir isso a pessoas que não me façam sentir acuada, que me transmitam segurança e por quem eu nutra grande afeto. Sabendo disso, eu tento mudar o que posso (por exemplo, treinar kung fu para minimizar minhas limitações motoras e minha resposta a instruções orais) enquanto, por outro lado, não pretendo mais me submeter ao que continua e, provavelmente, continuará me causando sofrimento; isso inclui quebras bruscas demais de rotinas que não precisariam ser alteradas e permissão para que estranhos me abracem se eu não me sentir confortável com isso.

Outra coisa que eu não posso esquecer é que a descoberta de que tenho um transtorno do espectro do autismo tem que me fazer não só ser mais cuidadosa comigo como também mais complacente com pessoas que, sem querer, me causaram algum sofrimento, pois elas certamente não tinham ideia da minha condição e, mesmo que tivessem, não saberiam como agir sem prévia instrução. Tem se servir também para eu lembrar que outras tantas pessoas têm suas particulares que tornam suas vidas mais difíceis e, por isso, preciso me esforçar mais para ser gentil com elas.

Enfim, receber o diagnóstico foi excelente, me trouxe alívio, mas não dá para dizer que fico totalmente numa boa com isso. Como já falei, algumas dificuldades vão me acompanhar pelo resto da vida. Surtos poderão continuar ocorrendo. Mas, sabendo-se que não há o que fazer e que só tenho esta vida a viver, preciso fazer o melhor que puder e isso inclui entender que não tenho a obrigação de ser forte o tempo inteiro. Preciso ser gentil com meus joelhos. Meu terapeuta sempre diz isso e fala que, não importa o que ocorra, eu devo continuar a nadar, mas lembrando de respeitar meu ritmo.

O melhor de tudo é que, se o fato de eu me perceber diferente me fazia mal, talvez mais pela dúvida sobre essa diferença, agora estou melhor porque sei que não sou errada nem doente. Apenas tenho um conjunto de características que me aproximam de uma parcela da população e me distanciam de outras. Se estas não estão preparadas para quem tem Síndrome de Asperger, não posso encarar isso com pesar, ou como sendo um problema meu. O problema não sou eu.

De agora em diante, assumindo que sou uma "gauche", pretendo viver de modo a nunca mais me forçar a entrar em caixas que não foram feitas para mim e a carregar apenas o peso que posso levar. Uma armadura mais leve haverá de tornar meu percurso mais fácil, apesar dos passos um tanto tortos.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Anjo cinza

O anjo cinza que canta blues
se instalou em minha casa.

Julgando curtas as noites
pôs blecautes nas janelas.

Uma semana passei
prostrada aos pés do anjo
ouvindo-lhe as dissonâncias.

Com medo de olhar-lhe o rosto
pedia em meu coração:
"me toma
me leva nos braços
pois para tão curta missão
é já tão longa esta vida..."

O anjo apenas cantava.

As notas encheram o quarto
subiram às prateleiras
cobriram os pontos de luz
penduraram-se no teto.

Quando o anjo foi embora
a réstia de luz que se abriu
mostrou a composição:

uma grande espada cinza
pesada 
tal qual as notas sopradas da boca do anjo
girava sob o teto
e sobre mim
suspensa apenas 
por um fino fio de seda.

Passaram-se sete dias
e a espada ainda está lá.

Só eu enxergo a espada
assim como só eu escuto
a voz grave do anjo cinza
que canta blues
à minha janela

as notas enchem o quarto
e caem das prateleiras
e embotam os pontos de luz
e giram com a espada
- tão tênue a linha 

e sob palavras e a espada
gira a minha cabeça
por um fio. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Manual (porque hoje é dia de reelaborar antigos escritos)

Não me capture da concha
se não puder me aconchegar por mais do que uma noite.

Tenha cuidado
ao me tocar a pele
os cabelos
e sobretudo o coração
pois sua intensidade vai ditar
o quanto devo me expor
(e é sempre para além de oitenta
pois há tempos eu deixei de ser oito).

Não me alimente com doçura
se não for regalar minha alma
com todos os cheiros, formas e sabores
que eu puder sentir.

Se não vai transbordar afeto
se não quiser ser todo amor

permita que outros dedos me colham
deixe que outras mãos me cuidem
abra espaço
para que outras ondas me levem.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Para F. (e porque está chegando o dia 12)

Eu
que pensava saber o que é poesia
descobri:

poesia é quando abro a porta para você
você
de capacete na mão, camisa de botões, sorriso no rosto

você
de cabelo recém-lavado e repleto de ondas que te mandam cortar
mas que eu quero assim
caudalosas
para eu afundar meus dedos e meu rosto nesse mar perfumado

poesia
é sua barba por fazer
é seu corpo
que parece pedir "me toca" só por ser como é
é seu braço firme me fazendo flutuar até seu colo
é sua mão enlaçada na minha

é a casa que ainda não temos
são os bichos que ainda não adotamos
são os filhos que eu não queria

é a paz que eu não imaginava ter no desassossego dos lençóis

são todos os versos
- os que escrevi, os que escrevo e os do porvir
com todos os clichês que se derramam das nossas bocas e dos nossos dedos:

nossa poesia.

quarta-feira, 1 de março de 2017

A quem confronta a tempestade

O que para ele é mar sinuoso
ela sabe:
é borrasca.

A luz única
ela sabe
(e ele também):
apenas brinca de ser farol
branco-azul
desvanecido pelas ondas sonoras e pelo cheiro salobro
que inundam o quarto.

O corpo sob o dela
ela sabe:
está entregue
navega-o
uma vez
duas vezes
tantas vezes quanto queira
bebendo-lhe as águas quentes
e pensa
entre lençóis e cabelos revoltos
estar no controle.

Pobrezinha.

Julgando-se capitã
não imagina que em breve
ventos calmos se insurgirão contra a tempestade.

Muito em breve
navegará o corpo sob o seu
pensando ser naufrágio
sem saber

que  é resgate.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Oração

Que a poesia me salve
não dos pesadelos
nem dos homens que me desamaram
tampouco dos que nunca me amaram
menos ainda dos que não se deixaram ficar por receio
de não regressarem de mim

que me salve
da ausência de fé
e do desespero de ver o índigo acobertar a meia-luz
e revelar fantasmas

que a poesia me salve
de me perder para sempre
nesse espaço-tempo infinito e desconfortável
que me consome de dentro para fora
e quase me drena a voz

que ela
– minha voz –
resista
para que a poesia me salve

de mim.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Súplica

Rogo a quem mantém o caos suspenso sobre nossas cabeças
e aprisionado dentro delas

que me resguarde de enlouquecer com as lembranças
de subtextos
de olhares distantes
de silêncios que poderiam ser cortados com uma faca

que me livre das palpitações
que transmute em cores os tons de cinza que me anuviam a visão

que me devolva

o espaço que você ocupa em mim.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Para ficar em paz


Talvez
eu jamais esqueça o seu nome
(tenho boa memória para nomes
assim como para particularidades anatômicas:
um sinal no peito
um dedinho torto
caninos sem pontas
pequenos calos nas mãos)

mas um dia
haverei de esquecer

o tom da sua voz me dizendo
como a uma criança
que eu tenha cuidado porque este mundo é uma selva
que eu observe com quem andam os homens
para deles me proteger

haverei de esquecer
de como era fácil desarmar você
um beijo na nuca apenas
um abraço com minhas pernas em tua cintura 
e era tudo meu:

os sorrisos
o corpo em festa
os olhos fechados
o ressonar revelando inimaginável intensidade
tanta
como se todo o ar tivesse de ser seu

um dia haverei de largar tudo isso
não naquele relicário
onde guardo os amores que me fizeram melhor

mas num baú
cuja chave perderei a cada troca de fechadura
para que permaneçam ali as lembranças de quem me fez abrir a porta
e ficar ao relento

para ficar  em paz
sabendo de você
talvez

apenas o nome. 


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Ponto final

Ele
pleno em seu silêncio e sua força
os quadris dela alçados por seus braços
nem valsa
nem foxtrot
uma dança só deles
batucada ao modo de "jam"
sem marcação
sem regência
sem ensaio
vontade apenas

aquela vontade

maior do que a vontade
só o esforço
que não houve na dança
mas que agora esmaga a meia-luz do quarto 

o esforço do instante em que ela olha o rosto dele
e ele não sabe que ela o vê

o esforço não é o de encontrar beleza no semblante plácido
– a beleza já estava lá
contudo
pela primeira vez ela o vê plácido como uma criança que dorme
uma criança que sonha
com brinquedos
com o bichinho de estimação
com o colo morno da avó
não aquela placidez de quem diz não se desequilibrar.

Aquele esforço dela é o de quem se conforma
simplesmente porque precisa

precisa se conformar
com a suspeita de ser a última vez
com o fato de não ser desta vez
com a ideia de ser apenas a da vez.

Sobretudo
precisa aceitar que
ele
deve ser apenas o da vez.

Ele
que já se foi antes mesmo de cruzar a porta mais pesada
– porém aberta, escancarada

ele
que poderia ter sido o recomeço
é apenas


ponto final.