Escritos de Ada

quinta-feira, 15 de março de 2018

Marielle

Ela costumava enfeitar o cabelo.

Então
imagino-a de turbante
com uma flor de pano em três ou quatro cores
adornada pelo halo crespo.

Imagino-a entre as irmãs
- dezenas delas -
dizendo-lhes:
não devemos dar a eles a dádiva do silêncio
lutemos juntas
cada uma a seu modo:
podemos gritar
cantar
podemos até mesmo dançar
fluidas e fortes tal qual água sobre rocha
teimosas como flor que cresce no asfalto
e não morre.

Imagino-a de punho em riste
mas sorridente
festejada

pois não quero pensar nos rojões vermelhos
nem no corpo que já não resiste à gravidade
tampouco em como é fácil romper a tênue linha entre a existência e o nada.

Prefiro imaginar o estampido de palmas
talvez o movimento de uma saia rodada
e de pés escapando das sandálias

qualquer momento em que tenha havido felicidade
um segundo qualquer
em que tenha havido esperança.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A criança azul

Cuidem bem dessa criança
porque ela é especial
– diz o velho tio
que enxerga o aqui e o além.

Essa criança é iluminada
– repete a prima descabelada
enquanto se esvai o gás da coca-cola.

Alheia a tudo
a criança brinca
no seu mundo de papéis e letras
não entende as orações dos adultos
pedindo que seu dom se preserve.

Cai a noite
e eles rezam ainda
enquanto deitam na rede a criança
que dorme imersa em luz:

não é de anjo
não é de deus
é só dela

a aura azul que a embala.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Aqueles homens

Aqueles homens já me visitaram à meia-luz.

Um deles calçava sandálias de metal
que me calejaram o coração.

Outro me deu flores
mas quis fazer brotar frutos
onde nenhum olho d’água se via.

O que veio depois desconhecia sutilezas
ainda sinto suas mãos em meu pescoço
por causa delas parei de dormir em minha cama.

Aquele outro veio tingido em cinza
e deixou rastros por todos os cantos
um pacote de biscoitos sobre a mesa
cascos de cerveja na pia
mais papéis na estante
fios negros e grossos no chão e nos travesseiros
espinhos que não me deixavam dormir.

Um deles 
– o das flores –
tinha mais coração do que eu.

Já os outros eram por demais pesados
mais penedos do que homens
mais rochedos do que gente. 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O homem no jardim

Vejo o homem de branco no jardim
coluna envergada pelo tempo
– bambu sob o vento –
mãos escurecidas de sol, terra e tinta
sementeiras
emprenham o ventre úmido da terra 
a carne mole do papel.

Daquela viceja a vida
em flores (o mel)
e em frutos (o sumo)

do outro emana fel:
palavras.

Vejo o homem no jardim
envergando-se ensimesmado
sobre a terra
terra que morrerá
o solo, de estéril, se avessará
acabarão o mel e o sumo
quiçá as secas folhas de papel

mas não as palavras.

Estas viverão
para além do homem de branco
que planta poemas no jardim.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A turca

Dizem que em seu rosto há faróis.

Eu vejo flores
verde-festejo
azul-alegria
turquesa-abraço.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Antes do verbo e da carne

Existe ainda um mistério
que talvez nunca se revele:
o exato momento em que amei você.

Mas acho que foi antes mesmo de sentir suas costas
e de tocar seus cabelos.

Antes 
do olhar fortuito sob o céu da Ribeira
ou mesmo das notas que rompiam a fumaça naquele palco
em um longínquo dezembro.

Acho que amei você antes
que o mesmo pássaro cantasse às nossas janelas
e a mesma flor tocasse nossos ombros.

Eu já o amava 
desde o vislumbre anterior  ao verbo  e à carne diante de mim:
o vislumbre de um homem diante do qual eu ficasse 
verdadeiramente nua.

Amei esse homem antes de vê-lo em você
mas não tanto
quanto na noite de minha nudez
quando mistério nenhum foi maior
do que o derramamento da alma
enfim revelada
enfim amada.

De tão menor 
cabe o mistério naquele pássaro
naquela flor
nas notas através da fumaça.

Nenhuma palavra o desvela.

Apenas sabemos que
antes do verbo e da carne
ou mesmo antes de nós
era.




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

"Gauche"

Meu primeiro livro se chama "Menina gauche". É um livro de poemas. Na orelha dele, escrevi um pequeno texto remetendo ao "Poema de Sete Faces", de Drummond, aquele do "Vai, Carlos, ser 'gauche' na vida". "Gauche" é uma palavra francesa que significa "esquerdo", "estranho", "esquisito".

"Esquisita". Esse é um dos adjetivos que mais escutei quando era criança. Pensei, durante muito tempo, que tal recorrência não pudesse ser fruto do nada, do acaso, de mera vontade de ver até que ponto ia minha paciência.Tinha de haver alguma motivação para isso.

Pois bem, foi motivada por isso que escolhi o título "Menina gauche" para meu primeiro livro. De certa forma, eu estava assumindo algo que parecia constatável diante de certas coisas que eu fazia. Eu era a menina que aprendeu a ler sozinha muito cedo, que falava como adulta, que levava brincadeiras a sério e chorava por causa delas, que não precisava estudar para nada que envolvesse leitura e escrita e que, em algum momento, percebeu que isso talvez não fosse tão bom. Se o fato de ser "muito inteligente" fez um professor me desafiar, diante de toda a turma, a tirar nota dez numa chamada oral - escrotamente elaborada a partir de 3487374 estatísticas num quadro de fim de página que criatura nenhuma pensaria em memorizar - e rir enquanto falava que me derrubaria do cavalo, não podia ser bom ser como eu era. Ser "superdotada", falar como uma "professorinha", viver num mundo à parte, rejeitar convites para socializar com amiguinhas na praia alegando cansaço, chorar por tudo, não me comover ou até rir com a notícia da morte de alguém parecia ser ruim. Então, eu precisava me adequar. Eu precisava lutar contra o que parecia ser inadequado em mim, mimetizar relações sociais, aceitar que alguns comportamentos precisavam mudar e treinar para isso.

Ocorre que isso cansa. Vigiar-se e se apertar em caixinhas estreitas gera dor e exaustão ao ponto do surto. E eu me sentia assim, exausta, querendo saber se eu tinha ansiedade, depressão, síndrome do pânico ou algo parecido quando, algumas semanas atrás, após eu ter chorado dizendo que não aguentava mais a sensação de estar sempre, em maior ou menor medida, inadequada, meu psicólogo confirmou que tenho Síndrome de Asperger (ou seja, estou na ponta mais branda do espectro do autismo). Isso ocorreu após mais de dois anos de terapia, aos 33 anos de idade. Dois anos podem parecer muito tempo, mas, na verdade, foram o necessário para que eu soubesse lidar com o diagnóstico. Meu terapeuta desconfiou da minha condição nas primeiras interações comigo, mas precisava se certificar de que minha reação ao laudo seria positiva.

Eu, como criatura que precisa de "todos os pingos no is" e que, nas palavras da minha avó materna, sou "cheia das nove horas", muito dependente de tudo bem categorizado e explicado, fiquei aliviada por poder colocar sob um só rótulo boa parte do que me faz ser quem eu sou. Eu preciso me certificar das coisas e entendê-las e fico aliviada quanto consigo colocá-las em caixas, logo eu, que passei boa parte da minha vida tentando fugir de vários contêineres nos quais tentavam me acomodar enquanto eu tinha a nítida sensação de que não cabia neles.

Agora entendo por que nem sempre é fácil olhar pessoas nos olhos enquanto falo com elas, por que me sinto mal quando me tocam sem permissão, por que preciso achar espacinhos nas multidões para ficar bem em meio a elas, por que certos barulhos são como punhais nos meus ouvidos, por que prefiro me comunicar a distância e por escrito, por que não lido bem com instruções orais, por que meus interesses e algumas habilidades são tão específicos e chegam ao ponto da fixação.

Eu não vou viver em função de ter a Síndrome de Asperger, mas pretendo, sim, focar em ser mais compreensiva comigo, ser mais cuidadosa, desenvolver mais estratégias que não me machuquem. Quero também que os neurotípicos entendam que há pessoas como eu, que precisam de um pouco mais de paciência e cuidado e menos de ouvir coisas como "ah, mas todo mundo é assim, todo mundo tem manias em algum grau, tudo mundo tem tique, tudo mundo isso e aquilo" etc... Vejam, eu não sou todo mundo. Eu, assim como qualquer pessoa que esteja dentro do espectro do autismo, sofro - sim, o verbo é esse mesmo, "sofrer" - com coisas que parecem triviais.

Por exemplo, eu não me irrito, simplesmente, com barulho. A coisa é muito pior. Eu tenho taquicardia quando a vizinha de cima anda de salto alto, eu pulo para cima da cama quando uma moto de 28372873287 cilindradas passa arrancando o asfalto da rua, eu já briguei com meus alunos porque achava que eles estavam conversando quando, na verdade, o barulho estava todo do lado de fora do ausitório. É tudo - percepção, sensações e respostas a elas - exagerado, seja para mais ou para menos. O processamento de estímulos é diferente e assim também tendem a ser minhas reações.

Então, por favor, você que me lê, saiba que o discurso do "somos todos iguais" não pode ser aplicado de modo leviano. Há uma diversidade de comportamentos e de conjuntos de características de modo que podemos dizer que, sim, somos sete bilhões de diferentes. Defendamos equidade nas mais diversas relações e níveis, não uma suposta uniformidade que é excludente, que faz alguém no espectro do autismo - que é um continuum imenso, passando por muitos tons de cinza desde a Síndrome de Asperger até o autismo mais severo - ouvir coisas como "ah, não, você tá aí falando que se incomoda com barulho, mas quem gosta de barulho? Ninguém."

O que estou querendo dizer é: abram seus olhos e seus ouvidos, escutem mais, observem mais, julguem menos, informem-se. Eu estou procurando me informar sobre minha condição e me observando melhor, procurando padrões que me auxiliem no entendimento de quem eu sou e na construção de estratégias para viver melhor. Relativizar minhas características de "aspie" - por mais que a intenção seja boa -, ao contrário de me ajudar, me silencia e me frustra. Isto inclui me comparar com outras pessoas que também estão no espectro do autismo. Trata-se, como já ressaltei, de um espectro muito amplo, de modo que é difícil pensar em um "aspie" com o mesmo conjunto de características de outro. Há aqueles que não suportam toque algum, nem do pai ou da mãe, por mais gentis e amorosos que estes sejam. Já eu consigo permitir isso a pessoas que não me façam sentir acuada, que me transmitam segurança e por quem eu nutra grande afeto. Sabendo disso, eu tento mudar o que posso (por exemplo, treinar kung fu para minimizar minhas limitações motoras e minha resposta a instruções orais) enquanto, por outro lado, não pretendo mais me submeter ao que continua e, provavelmente, continuará me causando sofrimento; isso inclui quebras bruscas demais de rotinas que não precisariam ser alteradas e permissão para que pessoas que não são do meu círculo me abracem se eu não me sentir confortável com isso.

Outra coisa que eu não posso esquecer é que a descoberta de que tenho um transtorno do espectro do autismo tem de me fazer não só ser mais cuidadosa comigo como também mais complacente com pessoas que, sem querer, me causaram algum sofrimento, pois elas certamente não tinham ideia da minha condição e, mesmo que tivessem, não saberiam como agir sem prévia instrução. Tem de servir, também, para eu lembrar que outras tantas pessoas têm particularidades que tornam suas vidas mais difíceis e, por isso, preciso me esforçar mais para ser gentil com elas.

Enfim, receber o diagnóstico foi excelente, trouxe alívio, mas não dá para dizer que fico totalmente numa boa com isso. Como já falei, algumas dificuldades vão me acompanhar pelo resto da vida. Surtos poderão continuar ocorrendo. Mas, sabendo-se que não há o que fazer e que só tenho esta vida a viver, preciso fazer o melhor que puder e isso inclui entender que não tenho a obrigação de ser forte o tempo inteiro. Preciso ser gentil com meus joelhos. Meu terapeuta sempre diz isso e fala que, não importa o que ocorra, eu devo continuar a nadar, mas lembrando de respeitar meu ritmo.

O melhor de tudo é que, se o fato de eu me perceber diferente me fazia mal, talvez mais pela dúvida sobre essa diferença, agora estou melhor porque sei que não sou errada nem doente. Apenas tenho um conjunto de características que me aproximam de uma parcela da população e me distanciam de outras. Se estas não estão preparadas para quem tem Síndrome de Asperger, não posso encarar isso com pesar nem como sendo um problema meu. O problema não sou eu.

De agora em diante, assumindo que sou uma "gauche", pretendo viver de modo a nunca mais me forçar a entrar em caixas que não foram feitas para mim e a carregar apenas o peso que posso levar. Uma armadura mais leve haverá de tornar meu percurso mais fácil, apesar dos passos um tanto tortos.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O anjo cinza

O anjo cinza que canta blues
instalou-se em minha casa
julgando curtas as noites
pôs blecautes nas janelas.

Uma semana passei
prostrada aos pés do anjo
ouvindo-lhe as dissonâncias.

Com medo de olhar-lhe o rosto
pedia em silêncio:
"me toma
me leva nos braços
pois para tão curta missão
é já tão longa esta vida..."

O anjo apenas cantava.

As notas encheram o quarto
subiram às prateleiras
cobriram os pontos de luz
penduraram-se no teto.

Quando o anjo foi embora
a réstia de luz que se abriu
mostrou a composição:

uma grande espada cinza
pesada 
qual as notas sopradas da boca do anjo
girava sob o teto e sobre mim
suspensa apenas 
por um fino fio de seda.

Passaram-se sete dias
e a espada ainda está lá.

Só eu a enxergo
e só eu escuto
a voz grave do anjo cinza
que canta blues
à minha janela.

As notas enchem o quarto
e caem das prateleiras
e embotam os pontos de luz
e giram com a espada
– tão tênue a linha 

e sob palavras e a espada
gira a minha cabeça

por um fio.