Escritos de Ada

sexta-feira, 24 de março de 2017

Manual de instruções

Se quiser me tocar
tenha cuidado para não me ferir
mas não tema segurar com firmeza minha cintura
(tenho um fraco por quem o faz com um braço apenas).

Se pensa em me elogiar
eleja palavras que me arrepiem a pele e os cabelos
(jamais o arrepio do medo)
e que me acalantem
enquanto penso como me encaixo melhor em seus braços para dormir
(metáforas sobre pássaros e mares costumam cair bem).

Se não puder saciar minha alma por noites
não a adoce em vão
pois esta vida já é por demais amarga.

Se não puder me aconchegar o coração
não o capture da concha.

Não me tire da minha frágil tranquilidade
se não vai se derramar em amor por mim

pois não sou mulher que se alimente a conta-gotas.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Dos ventos calmos que engolem tempestades

O que para ele
é mar sinuoso
ela sabe:
é borrasca.

A luz única
ela sabe
(e ele também):
apenas brinca de ser farol
branco-azul
desvanecido pelas ondas sonoras e pelo cheiro salobro
que inundam o quarto.

O corpo sob o dela
ela sabe:
está entregue
navega-o
uma vez
duas vezes
tantas vezes quanto queira
bebendo-lhe as águas quentes
e pensa
entre lençóis e cabelos revoltos
estar no controle.

Pobrezinha.

Julgando-se capitã
não imagina que
em breve
ventos calmos engolirão a tempestade.

Muito em breve
navegará o corpo sob o seu
sem saber
se é resgate
ou se é naufrágio.