Escritos de Ada
quinta-feira, 18 de junho de 2020
Do dia em que me tornei a pessoa que faz textão pros stories do insta (com algumas adaptações)
Nunca foi tão difícil trabalhar. Até minha escrita, que costuma fluir bem, tá esquisita demais. Leio, digito. troco coisa de lugar, volto às referências, digito de novo, o texto parece um Frankestein com câimbra, apago o que fiz e continuo nesse looping horroroso... Não consigo me concentrar, a pandemia bagunçou tudo e levou embora o foco que eu ainda mantinha. Permaneço com artigos inacabados enquanto as "milhas Lattes" precisam ser percorridas. Sério, hoje eu poderia dizer as piores coisas a qualquer um que viesse com o papinho de que "basta querer" para produzir algo que preste. Também não estou suportando o "ah, mas geral tá assim" porque, além de óbvio (pois tem que ser sem noção ou ruim, mesmo, para se sentir bem no meio deste inferno), acaba invisibilizando as particularidades que custei a reconhecer e a entender para, a partir dessa compreensão, traçar estratégias que tornem as coisas menos difíceis (e isso dá um trabalho do cão!). É isto, escrevi movida a raiva, não quero conselho, estou apenas querendo reclamar mesmo, talvez eu apague tudo, vlw flw.
sábado, 18 de abril de 2020
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
O que se sente (ou um escrito resgatado de 3 anos atrás)
Sinto muito
eu digo
e você me diz que estou
escolhendo o caminho mais confortável
o clichê que dizemos quando nada
sentimos
você me diz que estou sendo fria
na verdade
quando digo que sinto muito
é porque sinto por nós dois
por nosso passado
e pelo futuro que não vai chegar
é por nunca ter sentido tanto.
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
O princípio
Para F.
No princípio não houve o verbo.
Houve tons de vermelho
houve álcool
houve a sensação de nada ao nosso redor apesar de todas aquelas
pessoas
e houve depois uma mulher dizendo
que o amor é muito bonito mas não podíamos ficar sozinhos ali.
Do vermelho se fez o azul:
era a primeira madrugada
minha planície se tornou também sua
e as paredes do quarto azulavam
e escondiam tudo que não se pode dizer nem fazer às claras
enquanto o mundo
– apenas o mundo –
dormia.
A primeira manhã trouxe o sol mas ele parecia estar pela metade
e quanto anoiteceu não houve lua
você disse que havia luz
e até mesmo um brilho no mar
mas juro que eu vi a sombra escondendo inclusive
aquele fenômeno de nome engraçado
(luciferase)
Então já havia o verbo
mas a noite perdurou de modo que
por alguns dias não houve azul nem vermelho
ainda não havia lua
e a metade do sol tinha ido embora
então o verbo nos levou ao sétimo dia
e buscamos mais cores
e buscamos mais álcool
e havia tanta gente que em um momento já não havia ninguém
e tornamos ao princípio:
azul, vermelho, sons, luzes
tudo que havia se fundiu
e afugentou a sombra
e sol e lua se moveram tranquilos sobre a planície
e a luciferase continuou a brilhar
sobre a face das águas.
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
A grandeza dos trastes
(Publicado originalmente no Novo Jornal, em janeiro de 2010)
Carlos Drummond de Andrade disse, certa vez, que o maior poeta brasileiro
era Manoel de Barros. O próprio, mais tarde, discordou do mineiro de Itabira e falou
que o melhor era João Cabral de Melo Neto, seu contemporâneo da Geração de 45.
O fato é que há quem torça o nariz para o poeta matogrossense, dada sua
preferência por trastes e restos. “Sou mais a palavra ao ponto de entulho”, confessou
em um de seus poemas.
Além disso, Manoel
ainda é visto, folcloricamente, como o poeta pantaneiro. É verdade que seu
universo não é urbano. Predominam, em sua poesia, o mato embrenhado, os rios,
as plantas e os animais silvestres. No entanto, a presença do Pantanal é só um
dos detalhes na produção do escritor nascido no Beco da Marinha, beira do Rio
Cuiabá, em 1916. Seu trunfo é ser um artífice do verbo em sua origem espúria,
como revelam os versos: “Nenhuma voz adquire pureza se não comer na espurcícia.
Quem come, pois, do podre, se alimpa. Isso diz o Livro.”
A poesia de Barros
é a de quem está descobrindo o mundo à maneira ingênua de uma criança ou de um louco. “Poeta é um ente
que lambe as palavras e depois se alucina. / No osso da fala dos loucos tem
lírios.”, escreve. Manoel assemelha-se a um menino que, tão logo é solto em
meio a escombros, retira deles brinquedos e exibe-os com a bonita ingenuidade
de quem enxerga utilidade em algo aparentemente imprestável.
Dessa poesia
infante surgem imagens da essência de coisas comezinhas e mesmo abstratas. O
poeta “fotografa” o silêncio, o “azul-perdão no olho do cego”, o “perfume de
jasmim no beiral de um sobrado”, e personagens como o bêbado que caminha
solitário em uma rua silenciosa, o monge “descabelado” por uma palavra
renascida da ruína, os artistas que vagam pelo mundo criando obras a partir de
restos e pregando a inutilidade das
coisas. São esses os “sujeitos distraídos” de que fala o poeta mexicano Octavio
Paz: criaturas deslocadas do centro da cena social, ligadas à poesia porque dão
sentido a ela ao buscar o que poucos enxergam.
É nessa maneira peculiar de fazer – e revelar – poesia que, acredito,
está o maior mérito de Manoel de Barros, mestre em transformar o pequeno em
magnânimo. São escritores como ele que
mostram como, em se tratando de poesia, a inutilidade pode ser uma virtude.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Catedral
Ali
onde eu já quis dobrar os joelhos
onde eu imaginei haverem anjos
e - sacrilégio - desejei
brincar no telhado
ao lado dos querubins
Hoje
apenas pedras, estátuas, tapetes
e gente
tanta gente
cantando tão alto para ninguém
Ali
absolutamente nada
o nada
e seu peso retumbante
a me esmagar.
onde eu já quis dobrar os joelhos
onde eu imaginei haverem anjos
e - sacrilégio - desejei
brincar no telhado
ao lado dos querubins
Hoje
apenas pedras, estátuas, tapetes
e gente
tanta gente
cantando tão alto para ninguém
Ali
absolutamente nada
o nada
e seu peso retumbante
a me esmagar.
segunda-feira, 1 de abril de 2019
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
O mar da minha infância
(Texto originalmente publicado no Novo Jornal, edição de 19/02/10)
Moro a duas ladeiras do mar. Dois anos atrás, podia vê-lo do terraço de casa. Hoje, enxergo apenas uma nesga de oceano entre os dois espigões construídos a poucas ruas da beira-mar.
Moro a duas ladeiras do mar. Dois anos atrás, podia vê-lo do terraço de casa. Hoje, enxergo apenas uma nesga de oceano entre os dois espigões construídos a poucas ruas da beira-mar.
Embora próxima ao mar, não costumo
visitá-lo. Talvez seja nostalgia mal resolvida. Quando penso em mar, me vêm à
mente as pocinhas de Morro Pintado; as águas calmas de Upanema, onde minha mãe
me banhou aos seis meses de idade; as ondas da Baixa Grande em dias de maré
baixa, porque, quando a praia enchia, eu me machucava nas pedras sob a água.
Os domingos de praia em Areia
Branca, município oestano a 330 km de Natal, estão entre as lembranças quase
táteis da minha infância. A areia molhada e compacta, os castelos feios que eu
mesma desmanchava, as conchas que – vovô ensinou – carregavam o som das ondas. E
histórias de quando eu ainda não podia ser deixada a sós com o mar.
Minha avó materna conta que,
quando eu tinha dois ou três anos de idade, caí na sala de casa. Vovó me pegou
no colo imediatamente e, depois disso, parei de andar. Começou a peregrinação
nos consultórios médicos. Os exames – durante os quais eu esperneei, chorei e
gritei de pura manha (dizem) – não atestaram problema algum. Mas eu chorava e
permanecia sentada quando me punham no chão.
Então, um médico perguntou se
havia alguma atividade da qual eu gostasse muito. Surgiu a ideia de me levar à
praia na companhia de uma vistosa bola colorida. Não deu outra: tão logo vi a esfera
tricolor rolando na areia, esqueci a apreensão que me mantinha confinada nos
braços de vovó ou nos das tias. Ainda tenho a foto quadrada e pequena, tirada
com a Kodak da prima: em primeiro plano, uma garotinha pequena, cabeçuda e de pernas
tortas correndo atrás de uma bola enorme. Ao fundo, céu e mar se confundindo.
Durante anos, corri naquelas
praias, engilhei a pele das mãos e dos pés de tanto banho de mar, cansei de tentar
desembaraçar o cabelo imenso, cheio de sal, areia e nós. Hoje, há dez anos na capital,
sinto-me agoniada com a profusão de guarda-sóis, barraquinhas, cadeiras e carrinhos
de lanches, o fedor dos esgotos vencendo o cheiro da maresia, a água de qualidade
duvidosa. Então, lembro-me do do mar da minha infância, tranquilo e imponente, sua espuma
bordando a areia limpa, sem espigões, sem ambulantes, sem línguas negras. Só eu,
o oceano e meus castelos de areia e de sonhos.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
Peixes vivos
Minha arquitetura é líquida.
É de sensibilidades
descompassadas:
suor e lágrimas
enguias nas mãos de uma criança.
Às vezes consigo governá-las
e transmutá-las em tinta
ora azul ora lilás
vertida em verbo
Outras vezes
elas se transformam em peixes
bichos mais vivos do que eu
eles turvam a água
quebram o aquário
e dele se derramam minhas
sensibilidades
– aquelas descompassadas
enguias nas mãos de crianças –
sem tinta ou aquário
ou fundação qualquer
sobra
apenas aquela matéria incolor
fundação principal
da minha arquitetura.
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